Crônica da Semana com José Roberto Dantas Oliva
Era uma noite no final de 1981, dessas em que a cidade parecia guardar, sob as luzes do centro, uma promessa qualquer. São Paulo ainda permitia certas caminhadas, hoje mais raras: descer de ônibus, circular pelos calçadões com relativa segurança, olhar vitrines como quem consulta o futuro e deixar que o movimento das ruas conduzisse o passeio.
Nossa filha tinha ficado na casa da minha tia, no Bairro do Limão, onde também morávamos. Minha mulher e eu havíamos ido à região do Mappin, talvez para comprar algum eletrodoméstico, um presente de Natal ou apenas obedecendo ao chamado irresistível daquele jingle que atravessou gerações: “Mappin, venha correndo Mappin, chegou a hora Mappin, é a liquidação”.
Até hoje, basta lembrar para a música voltar inteira, como se saísse de um alto-falante antigo pendurado na memória. Ali, na Praça Ramos de Azevedo, esquina com a Xavier de Toledo, no início do Viaduto do Chá, o Mappin era mais que uma loja de departamentos. Era uma espécie de shopping center antes dos shopping centers, um templo do consumo paulistano, instalado desde 1939 diante do Teatro Municipal e destinado a permanecer na lembrança da cidade mesmo depois de fechar as portas em 1999. O relógio famoso, as vitrines e o burburinho compunham uma paisagem que parecia definitiva.
Do outro lado, o Teatro Municipal estava iluminado. Havia naquela iluminação uma solenidade que nos fez parar. Aos poucos, começaram a chegar carros de luxo; depois, limusines pretas. De dentro delas desciam homens de smoking, gravata borboleta e postura ensaiada; e mulheres em vestidos longos, como se tivessem saído de uma página social. Aquela elegância toda nos impressionava. Pertencia a outro cenário, e talvez por isso mesmo parecesse tão bonita.
Tínhamos ido de ônibus. Não me lembro se pelos velhos ônibus da Viação Brasília, cujo ponto final era na Praça do Correio, debaixo do Viaduto Santa Ifigênia, ou em ônibus da CMTC, que terminava no Largo do Paissandu. Naquele tempo, o centro guardava ainda uma familiaridade generosa. A Barão de Itapetininga seguia até o Mappin como uma rua que conduzia a um sonho.
E foi ali, por acaso, diante daquele teatro iluminado e daquela plateia que chegava envolta em gala, que descobrimos que Roberto Carlos cantaria naquela noite. Não era um espetáculo aberto ao público: era um evento fechado, exclusivo, reservado a convidados, gente da alta sociedade paulistana, executivos, celebridades. Nem sonharíamos, então, em entrar, mas, naquele instante, bastou saber que o Rei estava ali para nascer o desejo: um dia assistiríamos Roberto Carlos. Porque Roberto era – e é! – também o nosso Rei.
Eu já o carregava comigo havia muito tempo. Quando tinha programa na Rádio Presidente Venceslau AM, ZYK-502, toquei muito Roberto Carlos. Curtia as canções, anunciava com gosto, dedicava músicas à minha esposa, então namorada. “Como é grande o meu amor por você”, “Como vai você” e, nas horas em que o amor tropeçava nas próprias palavras, até “Um jeito estúpido de te amar”. A vida conjugal também tem sua discografia.
Muitos anos depois, o sonho se cumpriu. Fomos a mais de um show de Roberto Carlos. A primeira vez foi em Presidente Prudente, onde moramos durante dezesseis anos. Estivemos também em Londrina-PR. Quando morávamos em Prudente, fomos a São Paulo, de carro, no início de novembro de 2012, para assistir, no Ginásio do Ibirapuera, Roberto Carlos cantar pela primeira vez ao vivo, a música “Esse cara Sou Eu”, grande sucesso da novela “Salve Jorge”.
Viajamos mais de 500 quilômetros, acompanhados do casal amigo Toninho e Bidu Moré. Valeu muito a pena: a viagem, a companhia, o show. Tudo!
Não estivemos no Teatro Municipal. Nunca de black tie. Nunca descendo de limusine. Sem pompa, sem tapete vermelho, sem os sinais exteriores daquela noite de gala. Em todos os espetáculos, no entanto, a emoção veio inteira, como se aquele casal parado diante do Municipal em 1981 ainda estivesse ali, olhando para uma porta que não se abriria naquela noite, mas que a vida abriria depois. Durante décadas, não precisei de confirmação: eu vivi aquela noite.
O que fiz agora, com auxílio de uma inteligência artificial, foi tentar localizar melhor o registro. E aí vieram os tropeços. Primeiro, ela, a IA, disse que Roberto Carlos havia cantado no Teatro Municipal de São Paulo em outras ocasiões, como 1993, 2001 e 2009. Depois, negou que isso tivesse acontecido no início da década de 80. Informou que o especial de 1980 fora gravado no Palácio das Convenções do Anhembi e que o de 1982 ocorrera nos antigos Estúdios da Vera Cruz, em São Bernardo do Campo. Com isso, parecia encerrar o assunto, como se a minha lembrança fosse apenas memória afetiva.
Mas eu tinha certeza do que vira. Aproveitei justamente a brecha entre 1980 e 1982 e insisti: “Em 1981, foi onde?”. Só então a resposta mudou. “Você tem inteira razão”, disse a IA, que reconheceu o erro e informou que o especial de fim de ano de Roberto Carlos exibido pela TV Globo em 1981 teve seu encerramento gravado no Teatro Municipal de São Paulo, onde ele cantou clássicos que marcaram sua carreira. A tecnologia, depois de tropeçar mais de uma vez, acabou se redimindo e devolvendo razão à lembrança.
De fato, não era o nosso mundo. Mas há coisas que não precisam nos pertencer para nos marcar. Às vezes, basta estarmos na calçada certa, na noite certa, olhando para cima, diante de um teatro iluminado, para que um sonho comece.
Agora, graças ao link do YouTube indicado pela própria inteligência artificial, pudemos assistir em vídeo ao show que, naquela noite longínqua, apenas imaginamos. A cena fechou um círculo: o casal de ônibus diante do Mappin, o Rei cantando para poucos dentro do Municipal, a cidade iluminada, o relógio marcando uma hora que nunca terminou. Para quem quiser ver também, o registro está disponível em: Clique aqui
Ficou também uma lição contemporânea: a inteligência artificial ajuda, mas não substitui a lembrança, nem dispensa a checagem. Ela própria avisa que pode cometer erros. A memória também pode. Quando as duas se encontram – uma perguntando, a outra insistindo, às vezes devolvem ao passado luz que parecia apagada.
E eu volto a ver, sob o relógio do Mappin, minha mulher ao meu lado, o Teatro Municipal aceso e Roberto Carlos, invisível para nós, cantando dentro de um sonho que começava ali, naquela noite em que apenas passávamos pelo centro – hoje histórico! – da imensa e magnífica metrópole, e acabamos encontrando uma lembrança para a vida inteira.
JOSÉ ROBERTO DANTAS OLIVA
O autor é Doutorando em Educação pela FCT-UNESP de Presidente Prudente, Mestre em Direito das Relações Sociais pela PUC-SP, Advogado Trabalhista, Juiz Titular de Vara do Trabalho aposentado, Professor, Radialista, Jornalista e titular da cadeira nº 18 da Associação Venceslauense de Letras – AVL
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