Houve um tempo em que chovia dentro da televisão, mesmo nas noites mais secas de Presidente Venceslau. Distante 619 quilômetros da capital paulista, a cidade conhecia bem aquele inverno de chuviscos, chiados e imagens que mal se deixavam adivinhar. Nas décadas de 1980 e 1990, um dos principais divertimentos da população dependia de negociação permanente com a antena.
Nem tudo, porém, era névoa. Em 10 de abril de 1985, a Globo inaugurou um transmissor de 1.000 watts na torre da estação de tratamento de água, nos altos da Avenida D. Pedro II. A notícia ganhou a capa da edição 330 do Jornal Integração. Lá em cima, onde se cuidava da água da cidade, passava-se também a cuidar da imagem que entrava nas casas.
A presença de Juraci Magro da Silva, diretor de expansão da Rede Globo, do prefeito Tácito Cortes de Carvalho e Silva, do prefeito de Bataguaçu (MS) e de Inocêncio Erbella, ex-prefeito e depois deputado estadual, ao lado de inúmeras outras autoridades da cidade e região, dava a medida da importância da inauguração. Não se celebrava apenas uma máquina, mas a possibilidade de assistir sem precisar completar, pela imaginação, o que a tela escondia.
Augustinho Ramos Pereira, responsável pela retransmissão local, anunciava com entusiasmo o alcance do canal 8. A imagem beneficiaria Santo Anastácio, Piquerobi, Presidente Venceslau, Caiuá, Marabá Paulista, Mirante do Paranapanema, Teodoro Sampaio e Presidente Epitácio. Chegaria ainda a Ouro Verde, Dracena, Terra Rica e, em Mato Grosso do Sul, a Bataguaçu (MS), Anaurilândia e Nova Andradina.
O equipamento, custeado pela Globo, representava investimento aproximado de 300 milhões de cruzeiros. Segundo o registro da época, era raro a emissora instalar potência semelhante em municípios com menos de 100 mil habitantes. Em plena era analógica, a Globo encurtava distâncias com um investimento concreto. Mais de quatro décadas depois, em tempos de alta definição, tantos moradores relatam dificuldades justamente para receber sua programação.
Os demais canais, entretanto, continuavam – naquela época – a pedir socorro. Em 2 de outubro de 1989, pelo Decreto 3.710, o prefeito Tufi Nicolau, hoje falecido, constituiu a Comissão S.O.S. TV. O próprio decreto reconhecia que apenas os sinais da Globo atendiam condignamente à população. A sigla dizia tudo: havia urgência até no lazer.
Coube a mim presidir a comissão, quando era diretor de redação do jornal Integração. José Paulo Dias Pinheiro, presidente da ACIPREV; Aparecido Pedrosa, do Rotary; Lauro Dassie, do Lions; Arcênio Pedro Correia, de O Liberal; Clóvis Luquesi Moré, da Rádio Presidente Venceslau AM; Odélio Vilarinho Prudêncio, da Loja Maçônica Clodoaldo de Oliveira; e Antonio Carlos Moré, da Rádio Jovem Som FM, integravam o grupo.
Completavam a comissão José Mário Bonfim, Orides Artacho Peres, João Falcão Spinder, Augustinho Ramos Pereira e Waldomiro Buchar dos Santos. Na primeira reunião, Bonfim foi eleito secretário e Buchar, tesoureiro. Queríamos melhorar os sinais da Bandeirantes e do SBT e implantar a Manchete. Reuniam-se instituições e cidadãos para devolver nitidez às noites da cidade.
A comunidade respondeu. O Integração de 7 de outubro de 1989, edição 710, registrou NCz$ 15 mil arrecadados na primeira semana e depositados em conta específica. A estimativa inicial era de NCz$ 200 mil, mas os valores vinculados ao BTNF – Bônus do Tesouro Nacional Fiscal, referência de atualização monetária da época – subiam com a inflação. Enquanto se tentava firmar a imagem, o preço dos equipamentos também não parava quieto.
O jornal divulgava os nomes dos doadores e, em 9 de dezembro, na edição 726, anunciou a compra do primeiro transmissor, destinado à TVS–SBT, que adquirimos por NCz$ 70 mil. Em 27 de junho de 1990, o saldo da campanha foi entregue à prefeitura para os equipamentos da Manchete. Quando o município licitou o outro transmissor, a moeda já havia mudado: o cruzado novo dera lugar ao cruzeiro. A prefeitura assumiu a maior parte do custo de Cr$ 939.285,00. A solidariedade também tinha sua frequência.
Passaram-se décadas. A tecnologia prometeu aposentar o chuvisco e o aposentou. Mas, para quem não dispõe de streaming, a velha espera ganhou outra aparência: a tela preta ou azul, com o aviso “Sem Sinal”, ou a imagem desmanchada em quadradinhos. A falha deixou de fazer barulho. Agora, muitas vezes, responde com silêncio.
A imagem desmanchada em quadradinhos tem nome técnico: pixelização, ou efeito mosaico. Esse efeito pode surgir quando o sinal digital chega muito fraco, instável ou sujeito a interferências. É um sintoma, não um diagnóstico da origem da falha. Para quem se sentou diante da novela, porém, o resultado dispensa explicação: a cena se parte, a fala se perde e a história segue sem o espectador.
Depois do encerramento da afiliação da TV Fronteira à Globo, a TV TEM, de Bauru, assumiu a cobertura regional. Em Venceslau, a espera pelo retransmissor se prolongou. Em abril de 2026, a própria emissora anunciou a autorização para operar no município, ainda com a infraestrutura por concluir. Entre a mudança de afiliada e a chegada da imagem, ficaram noites demais.
Segundo os relatos locais que motivam esta crônica, muitos moradores perderam até jogos da Copa do Mundo. Agora, com o retransmissor instalado, a recepção da TV TEM continua a ser descrita como frequentemente irregular. Nas mesmas casas, os outros canais em alta definição chegam em perfeitas condições. O contraste reclama apuração técnica e solução, não mais resignação.
A privação pesa especialmente sobre quem tem menos recursos. Nem toda família pode pagar uma conexão adequada, dispor de aparelhos compatíveis ou recorrer a serviços de streaming. Para muitas, a televisão aberta continua sendo companhia e diversão; a novela, um encontro marcado ao fim do dia. Não é pouco o que se perde quando esse encontro termina diante de uma tela vazia.
A televisão já disputa espaço com a internet e as redes sociais. Quem ainda a escolhe não deveria ter de disputar também com a ausência de sinal. Se nada for feito com urgência, essa parcela fiel da audiência poderá desistir definitivamente do veículo. Não por falta de interesse nas histórias, mas por cansaço de esperar que elas apareçam.
Em 1985, a Globo investiu para que uma cidade enxergasse melhor. Em 1989, seu sinal era o exemplo que a SOS TV buscava para os demais canais. Hoje, segundo os relatos locais, esses canais chegam com nitidez, enquanto a programação da Globo, retransmitida pela TV TEM, falha.
A inversão é tão nítida quanto a imagem deveria ser: quem foi referência de qualidade tornou-se motivo de queixa.
Quem deu exemplo no passado, hoje deve uma resposta à altura daquela memória. O antigo SOS TV deveria permanecer nos arquivos, não voltar às salas. Se a solução continuar ausente, o próximo “Sem Sinal” poderá não vir do aparelho, mas do público: será a televisão procurando, tarde demais, o telespectador que deixou de esperá-la.
JOSÉ ROBERTO DANTAS OLIVA
O autor é Doutorando em Educação pela FCT-UNESP de Presidente Prudente, Mestre em Direito das Relações Sociais pela PUC-SP, Advogado Trabalhista, Juiz Titular de Vara do Trabalho aposentado, Professor, Radialista, Jornalista e titular da cadeira nº 18 da Associação Venceslauense de Letras – AVL
0 Comentário(s)
Seja o primeiro a comentar!