Crônica da Semana com José Roberto Dantas Oliva
Há lugares que uma cidade não pode tratar como fundo de quintal. O cemitério é um deles. Ali repousam nomes, histórias, famílias inteiras, trabalhadores anônimos, pioneiros, gente simples e gente conhecida, todos igualados pela mesma certeza que, um dia, também nos alcançará. Por isso, cuidar de um cemitério não é apenas cumprir uma tarefa administrativa. É um gesto de civilização, de memória e de respeito.
Durante muitos anos, quem passava pelo Cemitério Municipal de Presidente Venceslau se deparava com uma frase breve, mas de imensa força: “Fui o que és, serás o que sou”. Era como se os mortos, em silêncio, nos dirigissem uma advertência de humildade.
Associada à tradição dos epitáfios e ao antigo espírito do memento mori, a expressão aparece em formulações semelhantes na arte e na cultura funerária europeias, inclusive em referências ao afresco A Santíssima Trindade, de Masaccio, no Renascimento florentino. Sua mensagem atravessa séculos: a morte não humilha a vida; apenas a recorda de sua medida.
Talvez por isso incomode tanto ver o cemitério de uma cidade com sinais de descuido. Mato, sujeira, restos de materiais, acessos mal-acabados, portões improvisados e entradas sem a dignidade que o espaço exige não são detalhes menores. Revelam como a cidade se relaciona com a própria memória. Não se trata de luxo, nem de ostentação. Trata-se de decência.
O acesso principal, pela Rua Regente Feijó, merece atenção especial. É a porta histórica do cemitério, por onde gerações de venceslauenses passaram em dias de despedida, oração e saudade. Um portal mais bem cuidado, limpo, iluminado, visualmente respeitoso e arquitetonicamente valorizado não seria enfeite: seria reconhecimento. A entrada de um cemitério deve comunicar recolhimento, ordem e respeito, não abandono.
O mesmo se diga, com ainda mais urgência, do acesso pela Avenida Princesa Isabel, próximo ao Parque São Jorge. Durante muito tempo, depois da ampliação do cemitério, aquela frente permaneceu sem fechamento adequado. As sepulturas avançavam em direção à avenida, os túmulos ficavam expostos e o lixo se acumulava no local. Era uma imagem dura, sobretudo por se tratar de uma das entradas importantes da cidade.
Em 24 de agosto de 2022, depois de conversa que tive com ele sobre o assunto, Toninho Moré registrou uma sugestão simples e sensata: além do muro, o ideal seria construir ali um belo portal, “algo bonito, bem iluminado”, um “projeto moderno”, compatível com a região que vinha recebendo novos empreendimentos imobiliários e com o prédio residencial de 20 andares, hoje já em fase final de construção. A observação fazia sentido então e continua fazendo sentido agora. Veja: Clique aqui
De lá para cá, porém, o que se viu ficou aquém do desejável. O muro foi erguido, mas recebeu apenas chapisco e caiação, solução simples demais para a importância do local. Durante certo período, faltou portão. Depois, apareceu uma estrutura metálica bastante rústica, sem o cuidado visual que um espaço público dessa natureza exige. Mais recentemente, instalou-se um portão de correr de ferro, ao menos mais compatível com a altura do muro. Ainda assim, falta o principal: transformar aquela entrada em portal, com projeto, presença, iluminação e permanência.
É preciso dizer isso com serenidade, mas também com franqueza: obras públicas não devem ter aparência de improviso, nem podem ser conduzidas como se bastasse resolver o problema de qualquer maneira. Quando se faz algo para a cidade, especialmente em lugar tão simbólico, é necessário planejamento, critério e zelo. O muro, segundo foi noticiado, demorou cerca de um ano para ficar pronto. Veja: Clique aqui
Também já se registrou situação de abandono dentro do próprio cemitério, com sujeira, restos de materiais e buracos. Numa área de visitação, dor e recolhimento, isso causa má impressão em quem chega e, principalmente, em quem vai ali para reverenciar seus mortos. Uma cidade se apresenta também pelos seus detalhes. E um cemitério malcuidado, por mais que se tente disfarçar, fala alto.
O episódio mais grave foi noticiado no início deste ano: um Cristo de bronze, com mais de dois metros de altura, foi furtado de um túmulo de família localizado na avenida principal do cemitério.
Também se comentou que outros furtos menores já teriam ocorrido. A falta de vigilância e a facilidade de acesso favorecem esse tipo de ação. Quando até os símbolos de fé e memória são arrancados de um túmulo, é sinal de que alguma coisa está muito errada. Veja aqui: Clique aqui
Desde 2021, pelo menos, discute-se a necessidade de ampliar o cemitério atual ou construir um novo. O tema merece estudo de viabilidade sério, técnico e transparente. Talvez a ampliação seja possível; talvez um novo cemitério seja o melhor caminho. Mas uma conclusão é inevitável: mesmo que outro venha a ser construído, o atual não poderá ser abandonado. Ali está parte da história de Presidente Venceslau. Ali estão os nossos mortos. E uma cidade que abandona seus mortos começa, aos poucos, a abandonar também a si mesma.
Por isso, é hora de pensar em um conjunto de melhorias: manutenção e limpeza mais constantes, iluminação interna adequada, recuperação dos acessos, valorização do portal principal da Rua Regente Feijó e construção de um verdadeiro portal na Avenida Princesa Isabel, não apenas de um portão funcional. Também se poderia estudar, com cuidado, a viabilidade de um velório municipal próximo a um dos acessos, talvez na própria região da Princesa Isabel, onde ainda parece haver espaço. Tudo isso deve ser analisado com responsabilidade, mas não pode ser simplesmente ignorado.
“Fui o que és, serás o que sou.” A frase antiga continua atual. Ela não pede medo; pede consciência. Lembra que os que partiram já estiveram no nosso lugar e que nós, um dia, estaremos no deles. Entre uma ponta e outra dessa verdade, resta-nos viver com dignidade — e tratar com dignidade aqueles que já não podem pedir por si mesmos.
Cuidar melhor do cemitério de Presidente Venceslau é, portanto, mais do que uma obra urbana. É uma obrigação moral. Não se exige ostentação. Exige-se respeito. E respeito, nesse caso, começa pelo básico: limpeza, manutenção, segurança, beleza discreta e entradas que, sem luxo desnecessário, tenham a imponência serena exigida pela memória que guardam.
JOSÉ ROBERTO DANTAS OLIVA
O autor é Doutorando em Educação pela FCT-UNESP de Presidente Prudente, Mestre em Direito das Relações Sociais pela PUC-SP, Advogado Trabalhista, Juiz Titular de Vara do Trabalho aposentado, Professor, Radialista, Jornalista e titular da cadeira nº 18 da Associação Venceslauense de Letras – AVL
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