Presidente Venceslau | Quinta-Feira, 10 De Setembro De 2026
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Nilda Ferreira Fontolan: a primeira luz

Nilda Ferreira Fontolan: a primeira luz

José Roberto Oliva escreve Crônica da Semana

Há memórias que não se apagam. Permanecem acesas como brasas antigas, iluminando caminhos que a infância inaugurou. Entre todas as lembranças que guardo da Vila Baruta, nenhuma é tão decisiva quanto a da professora que me esperava do outro lado do portão da Escola Estadual de Primeiro Grau “Alice Marcondes Guímaro”.

Nilda Ferreira Fontolan foi minha professora da 1ª à 4ª série, entre 1969 e 1972.

Dizer isso é apenas o início. Foi ela quem me alfabetizou, quem me apresentou o território das palavras, quem ergueu a base sobre a qual se apoiariam todos os estudos, ofícios e conquistas da minha vida. Se existe uma linha que liga o menino da Rua Euclides da Cunha ao adulto que aprendeu a amar os livros, essa linha atravessa, com nitidez, a sala de aula dela. Nilda ensinava mais do que conteúdos. Ensinava cuidado.

Tinha sensibilidade, atenção, firmeza e ternura. Preocupava-se com todos os alunos, mas eu sempre senti que ela me estimulava de modo especial, como se percebesse, antes de mim, que o conhecimento poderia abrir portas que a condição humilde insistia em manter fechadas.

Ao concluir a quarta série, recebi dela um livro de literatura. Ainda hoje, vejo naquele gesto uma espécie de senha: a autorização afetuosa para entrar, sem medo, no universo das letras.
Venho de família simples. Meu pai, carpinteiro, e minha mãe, do lar, sempre trabalharam muito. Estudar exigia esforço redobrado.

Naquele tempo, filhos de famílias pobres começavam cedo a trabalhar. Ainda assim, meus pais nunca quiseram que eu seguisse o ofício duro da carpintaria. Desejavam para mim um caminho menos penoso, e a educação pública venceslauense fez toda a diferença.

Depois de Nilda, vieram outras escolas, outros professores, outras disciplinas.

Fui aluno aplicado, sem falsa modéstia. Mas nunca tomei isso como mérito isolado. A base estava feita. A disciplina intelectual, o respeito ao estudo, a atenção ao detalhe, tudo isso nasceu na sala de aula da professora primária que me ensinou a ler e a acreditar.

A vida seguiu: trabalho cedo, casamento aos 18 anos, filhos, noites de estudo, duas graduações, concursos, magistério superior, especialização, mestrado e, agora, o doutorado em Educação, em curso.

Mudaram as carteiras, os prédios e os títulos. Mas permaneceu o encantamento pelo aprender e, sobretudo, a gratidão. Por isso dou tanto valor aos professores.

São profissionais muitas – na maioria das – vezes mal remunerados, pouco reconhecidos e excessivamente cobrados, mas capazes de realizar a mais decisiva das obras: transformar destinos. Uma professora primária, equivalente hoje aos primeiros anos do ensino fundamental, pode não aparecer nas manchetes, mas é ela quem acende a primeira luz.

Antes do diploma, antes da profissão, antes da aprovação em concurso, existe alguém que segura a mão da criança e lhe apresenta o alfabeto. No meu caso, esse alguém teve nome, voz e delicadeza: Professora Nilda Ferreira Fontolan.

Esta homenagem, dedicada à educadora que marcou minha infância, é também um gesto de reconhecimento à força da escola pública e ao papel transformador que ela desempenha – ou é capaz de desempanhar – na vida de tantos jovens.

Deixo aqui registrado, desde já, que uma versão ampliada deste texto, incluindo reflexões sobre a necessidade de Presidente Venceslau lutar pela instalação de uma universidade pública, será publicada na coletânea da Associação Venceslauense de Letras – AVL, a ser lançada no próximo dia 09 de outubro, durante a Feira de Escritores, no pavilhão da Fepasa, a partir das 18h.
Porque algumas histórias merecem ser contadas mais de uma vez. E algumas luzes merecem ser acesas para sempre. Obrigado, professora Nilda!

JOSÉ ROBERTO DANTAS OLIVA
O autor é Doutorando em Educação pela FCT-UNESP de Presidente Prudente, Mestre em Direito das Relações Sociais pela PUC-SP, Advogado Trabalhista, Juiz Titular de Vara do Trabalho aposentado, Professor, Radialista, Jornalista e titular da cadeira nº 18 da Associação Venceslauense de Letras – AVL

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