(*) Paulo Francis. Jr
Em meados de 2016, perdi minha mãe querida. Há uma semana, meu pai, Paulo Francisco, partiu para a Eternidade. No domingo passado, dia 13/03/2022, ele acordou como sempre, cheio de felicidade. De manhã ainda me foi possível, ao visitá-lo na casa de minha irmã, fotografar lhe pela última vez, durante uma conversa amistosa, sentado numa cadeira de área. No meio do dia, as coisas foram se complicando, a diabetes o atacou de maneira intensa. Na Santa Casa, foi controlada. De tarde, no entanto, durante um cochilo rotineiro, nos deixou. Em circunstâncias adversas, situações difíceis ou sem explicações plausíveis, papai pronunciava um jargão bastante convincente e dava risadas: “Isso são os fatos preponderantes que a natureza impõe!” Kkkk... Nas boas e nas condições mais delicadas que passamos como família, papai sempre demonstrou firmeza nas suas decisões. Era amável! O que você lerá a partir do próximo parágrafo se trata de uma crônica que fiz anteriormente, que marcou meio século de existência da nossa família...
Por estes dias, toda nossa família se reuniu em torno dos meus pais, Paulo e Carmelita. Ambos completaram 50 anos de casamento. As Bodas Especiais de Ouro! A confraternização aconteceu numa tarde de domingo, no Salão de Festas da P1, com a presença de velhos amigos. Percebi que o tempo passou para aquele casal e para nós, também. Notei o grande número de automóveis estacionados próximo ao local. Recordei-me que nem sempre foi assim. O primeiro e grande meio de transporte deste grupo social foi a bicicleta, sempre movida pelo “arroz e feijão”. Rsss... A origem da família foi sobre duas rodas.
Na chamada “cadeirinha”, feita com acento em madeira almofadada e ganchos de metal, colocada na parte da frente no guidão, aos quatro anos, tive os meus primeiros passeios. Havia nela um lugar para colocar os pezinhos e a gente ia, gostoso, dar algumas “voltas” por Presidente Venceslau. Recordo-me até da marca desta bicicleta: Monark. A legítima, com um logotipo brilhante: uma bonita coroa de rei bem na parte da frente.
Um pouco mais tarde, ainda bem franzino, aos seis ou sete anos, foi neste veículo de meu pai que aprendi a “andar de bicicleta”. E de maneira bem peculiar! Imagine aí como eu fazia... Começava passando a perna direita por dentro do quadro. Era muito engraçado já que a bicicleta, que era grande, alta e pesada para minha idade, ficava meio inclinada, com o meu corpo servindo de contrapeso para dar o equilíbrio quando eu montava. Tomei cada tombo... O que mais me chamava a atenção na bicicleta de papai era uma “inovação” para a época; o sistema de freio tinha um nome bem bacana: “breque de pé”. Bastava retroceder os pedais, movimentando a catraca ao contrário, e ela iniciava o processo de diminuição da velocidade e parada. Quando feito de modo bem firme e forte, o pneu deixava marcas no solo. Ah... Como eu gostava de ver aquilo...
Saia para tudo quanto é canto de Venceslau, de bicicleta. Lá, onde hoje é a Prefeitura Municipal de Presidente Venceslau, era um enorme mercado onde se vendiam frutas, legumes e peixes até meados dos anos 70. Mamãe pedia para que eu fosse comprar algumas coisas e eu ia todo feliz! Trazia tudo com uma sacola presa no guidão e mais um pouquinho de mantimentos, na chamada “rabeira da bicicleta”. Naquele tempo, meu pai saía para o centro da cidade e quando voltava, por vezes, trazia um ou dois franguinhos amarrados pelos pés pendurados no guidão, para o almoço de domingo. Rsss... A gente gostava de ver ele chegando. Sempre trazia um doce de leite pra nós...
Tinha vez que, eu e meu irmão, íamos juntos com as “magrelas”, tomar banho nos córregos próximos à cidade, que na época ainda não eram poluídos. Quase sempre nós íamos ao Córrego da Matinha, que existe até hoje paralelo à Rodovia da Integração. Às vezes, íamos até tomar banho na lendária e inesquecível Cachoeirinha, um riacho próximo ao trevo do antigo Frigorífico Kaiowa. Quando estávamos dispostos mesmo, a grande aventura era - de bicicleta! -, ir tomar banho lá no córrego do Bairro Aimoré, bem perto da ponte. Ou ir, margeando a linha férrea até cidades próximas como Piquerobi ou Caiuá. Meu pai e meus tios já foram até Marabá Paulista e voltaram de bicicleta. Não é legal?! E você? Seu pai ainda é vivo? Já passeou com ele de bike?
Na semana passada, tive o prazer de assistir a um filme cujo título é o mesmo desta crônica. É uma produção maravilhosa feita na Polônia em 2012, que retrata um conflito de convivência entre três gerações: avô, pai e filho. O ponto central do drama é um acontecimento envolvendo uma bicicleta. Em determinado momento do filme o neto pergunta: “Vovô, você tem medo da morte?” A resposta é uma lição inesquecível: “Não!”, diz o idoso, que complementa: “Eu tenho medo de não poder ir ao banheiro sozinho algum dia!” No geral, meu pai viveu bem, quase sem empecilhos nesta área.
Agora, não tenho mais a bicicleta e nem meu papai. Somente restou saudades da sua presença...
(*) Paulo Francis. Jr é da AVL e escreve aos domingos no Jornal Integração Regional.
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