Presidente Venceslau | Quarta-Feira, 22 De Julho De 2026
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Entre a fumaça e o leite - Crônica

Entre a fumaça e o leite - Crônica

Crônica com José Roberto Dantas Oliva

Quem me conhece talvez já tenha ouvido esta história. Volto a contá-la não por saudade da fumaça, mas porque certas lembranças, quando sobrevivem ao tempo, podem servir de aviso a quem ainda caminha distraído para o abismo.

Houve um tempo em que fumar parecia bonito. O cigarro entrava em cena como sinal de elegância: entre os dedos, ao lado do copo, sob a luz dos bares, nas telas, nas revistas, nos gestos estudados de uma masculinidade fabricada. A publicidade, mestra em vestir armadilhas com roupa de sonho, soube explorar essa fantasia.

O chamado “Homem Marlboro” vinha montado em cavalos, atravessando paisagens abertas, como se a liberdade coubesse na ponta acesa de um cigarro. “Os homens se encontram no mundo de Marlboro”. Era o convite para um mundo inventado, onde a fumaça prometia coragem, maturidade e independência.

Eu também fui alcançado por essa sedução. Comecei cedo, muito jovem, quando era radialista. Havia noites compridas, conversas sem pressa, microfone, redação, balcão de bar, amigos e a falsa impressão de que o cigarro completava a cena. No início, procurei marcas mais leves, de filtro branco, como se a aparência delicada pudesse aliviar a gravidade do gesto.

O primeiro foi Charm. Depois veio o Galaxy. Experimentei também os mentolados, mais por curiosidade do que por gosto. Mas o vício tem a paciência de um cobrador silencioso: primeiro pede pouco, depois exige mais. O corpo, domesticado pela nicotina, já não se contentava com promessas suaves. Acabei no Minister. Marlboro, apesar de todo o império de imagens, nunca fumei.

Ao fim e ao cabo, eu fumava dois maços de Minister por dia. Quando me sentava para tomar umas cervejas com amigos, a conta subia sem pedir licença. Entre uma história e outra, um maço desaparecia como se tivesse sido feito apenas de cinza e vento.

As mãos pareciam precisar daquele pequeno ritual. Procuravam o bolso, a carteira, o isqueiro, a chama. E elas mesmas me denunciavam. As pontas dos dedos viviam amarelecidas pela nicotina, como se carregassem pequenas manchas de rendição que eu fingia não ver.

A primeira vez que parei de fumar foi em São Paulo. Morávamos, minha mulher, minha filha e eu, numa casa de fundo, numa viela do Bairro do Limão. Não houve discurso, promessa solene nem iluminação repentina.

Houve necessidade. A vida, quando aperta, costuma formular perguntas simples e impiedosas. A minha era esta: o maço de cigarro ou o leite da minha filha. Quando fui para lá, tomava apenas um ônibus da CMTC – Companhia Municipal de Transportes Coletivos – na Avenida Deputado Emílio Carlos, até o ponto final no Largo do Paissandu, no centro velho da Capital. De lá, seguia a pé até a Rua Araújo, onde ficava a Delegacia do IBGE em que eu trabalhava.

No fim do dia, refazia o caminho no mesmo ônibus azul, enquanto a cidade escurecia nas janelas. Depois, a Delegacia do IBGE mudou-se para o Itaim Bibi, mais distante. Não havia vale-transporte, e as despesas cresceram. Como o dinheiro não alcançava o mês inteiro, muitas vezes descia a pé até o Largo do Limão e tomava o ônibus da Viação Nossa Senhora do Socorro, um monobloco Mercedes branco e vermelho.

Ia, não raro, pendurado no degrau de trás, até conseguir me acomodar, em pé, no corredor do coletivo. Descia na Avenida São Gabriel e seguia, pela Rua Joaquim Floriano ou pela Tabapuã, até o trabalho, na Rua Araújo, 93. De ida e volta, eram cerca de quatro quilômetros caminhados por dia. O bolso impunha o sacrifício; o corpo, sem que eu soubesse, recebia o benefício.

Foi nesse tempo estreito que larguei o cigarro pela primeira vez. Explicar a decisão era fácil; cumpri-la, nem tanto. Entre garantir o leite da minha filha e sustentar a fumaça que me consumia, não havia escolha honesta. O vício ainda chamava, mas a paternidade falou mais alto e sua voz, naquele momento, foi mais firme que qualquer vontade.

Mais tarde, retornei a Presidente Venceslau. Já gerente do Jornal Integração e apresentador do jornal falado na rádio AM, voltei a fumar. O velho hábito encontrou outra fresta: a rotina corrida, as conversas, a falsa companhia (do cigarro) entre um compromisso e outro.

Os dedos tornaram a amarelecer, e o pulmão começou a protestar. Pela manhã, eu acordava com um pigarro áspero, daqueles que parecem vir de um porão dentro do peito. Procurei o médico e fiz radiografia; ainda estava tudo bem. Mas veio o aviso: se eu não parasse, teria sérios problemas no futuro.

Nessa época, meu segundo filho já havia nascido. Relutei, como quase todo fumante reluta. O vício é hábil em fabricar desculpas: hoje foi um dia difícil; amanhã eu começo; depois desta carteira eu paro. Mas a força de vontade e o desejo de viver foram abrindo passagem. Certo dia, saí do jornal e fui fazer um lanche no bar da esquina. Ali, pensei nos malefícios do cigarro, na advertência do médico, nos meus filhos, no futuro que eu queria ver chegar.

Ao sair, levei a mão ao bolso para acender mais um cigarro. Então, num gesto até politicamente incorreto, peguei o maço e o isqueiro e joguei os dois no bueiro. Nunca mais fumei. Isso já faz cerca de quarenta anos. No começo, foi muito difícil. Faltava algo entre os dedos, como se a mão tivesse perdido uma mania antiga. A vontade vinha forte, especialmente quando eu me sentava para tomar umas cervejas com amigos e familiares.

O corpo ainda procurava o gesto: colocar o maço no balcão, puxar o cigarro, aproximar a chama, tragar. Mas, a cada vontade vencida, eu retomava um pedaço de mim.

Hoje, não sinto mais vontade nenhuma. A fumaça, em geral, não me incomoda, embora eu procure evitar o papel involuntário de fumante passivo. O que me espanta é perceber que, mesmo sem o brilho enganoso das antigas propagandas, ainda há quem comece a fumar.

Os maços agora trazem advertências duras, imagens de câncer, enfisema, infarto, gangrena, cegueira, envelhecimento precoce, aborto, danos a bebês e morte. Ainda assim, muita gente acende o primeiro cigarro sem imaginar que, quando a nicotina cria raízes, arrancá-la do corpo e da rotina pode ser uma batalha longa.

Deixo este relato como quem deixa uma luz acesa na varanda para alguém que ainda vem pela estrada. A quem nunca fumou, peço: não comece. Nenhuma pose, nenhum grupo, nenhuma propaganda, nenhuma ansiedade merecem esse preço.

A quem fuma, digo com respeito e esperança: é difícil, mas é possível parar. Eu parei quando precisei escolher entre a fumaça e o leite. Depois, parei de vez quando entendi que também precisava escolher entre o vício e a vida. E, nessa escolha, não há maço que valha a liberdade de respirar sem corrente.

JOSÉ ROBERTO DANTAS OLIVA
O autor é Doutorando em Educação pela FCT-UNESP de Presidente Prudente, Mestre em Direito das Relações Sociais pela PUC-SP, Advogado Trabalhista, Juiz Titular de Vara do Trabalho aposentado, Professor, Radialista, Jornalista e titular da cadeira nº 18 da Associação Venceslauense de Letras – AVL

Fonte: Blog do Toninho

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