Cinema para transformação
João Pedro Oliveira fala sobre primeiro curta-metragem No Fim do Déjà Vu, vencedor de melhor direção no Los Angeles Brazilian Film Festival- Rovena Rosa/Agência BrasilSem formação acadêmica tradicional em cinema, João construiu sua trajetória por meio de cursos livres, oficinas e estudo autodidata. Atualmente, retomou a graduação em Estética e Teoria do Teatro: “Precisei entender como escrever um roteiro, como trabalhar a narrativa. Fui fazendo cursos e aprendendo na prática.”
Foi desse processo que nasceu No Fim do Déjà-Vu. O curta acompanha Fabrício, um artista plástico negro que decide abandonar o tráfico para sustentar o filho por meio da arte. Durante um festival de pipas, a criança desaparece misteriosamente, levando o personagem a uma jornada de busca marcada pela espiritualidade negra.
“Eu queria contar uma história sobre espiritualidade e sobre a minha própria relação com isso. A ficção permite que você conte a sua história de outra forma.”
A obra estreou internacionalmente em Nova York e conquistou o prêmio de Melhor Curta-Metragem antes de chegar ao Brasil. Em seguida, recebeu reconhecimento no festival de Los Angeles, consolidando a projeção internacional do diretor.
“O filme foi exibido para um público que não conhecia aquela realidade. Eu me perguntava se eles entenderiam. E entenderam. Foi emocionante.”
Antes de dirigir, João já havia chamado atenção como ator. Em 2024, recebeu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Brasília pelo curta E Seu Corpo é Belo, dirigido por Yuri Costa. Ambientado nos bailes black dos anos 1970, o filme retrata uma história de amor entre dois homens negros em um contexto raramente explorado pelo cinema brasileiro.
“Foi mágico. Eu lembro de entrar na sala e ver Rui Guerra assistindo ao filme. Depois ele ficou até o final e veio conversar. Foi uma noite inesquecível.”
A experiência reforçou a convicção do artista sobre o papel transformador da arte, “Eu queria fazer um filme que pudesse chegar a pessoas que vivem essas mesmas realidades e mostrar que existem outros caminhos possíveis.”
João reconhece a importância de iniciativas que abriram espaço para artistas oriundos das periferias, como o grupo teatral Nós do Morro e produções como Cidade de Deus.
“A possibilidade de você se ver representado é o que permite sonhar. Quando alguém parecido com você faz alguma coisa, você passa a acreditar que também pode fazer.”
Cinema nacional
Para o diretor, o atual momento do cinema nacional representa uma oportunidade histórica de apresentar ao mundo um Brasil mais complexo e diverso: ‘’Fazer com que as pessoas descubram mais sobre a nossa cultura para além dos estereótipos é maravilhoso. O audiovisual tem sido essa ponta de lança.”
Na avaliação de João Pedro, o cinema brasileiro vive um período de renovação criativa capaz de despertar interesse internacional: “O Brasil tem muito potencial para exportar não apenas a nossa cultura, mas também as nossas formas de realizar, nossas técnicas e nossos métodos. Existe uma sede por histórias novas, e o cinema brasileiro pode oferecer isso.”
A aposta do cineasta é que essas histórias continuem surgindo dos territórios que, por muito tempo, ficaram à margem das telas: “Eu acredito que a gente pode construir outras realidades através do cinema. E também ressignificar histórias que foram contadas de outra forma. Essa é a força do audiovisual.”
Fonte: Agência Brasil
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