Presidente Venceslau | Terça-Feira, 29 De Setembro De 2026
Editorial

Democracia: aperte a tecla verde e confirme!

Democracia: aperte a tecla verde e confirme!

No domingo, 4 de outubro de 2026, o Brasil acordará mais cedo. Das oito da manhã às cinco da tarde (17h), pelo horário de Brasília, haverá passos apressados nas calçadas, cumprimentos breves diante das escolas e papéis dobrados no bolso. Em cada seção eleitoral, a velha cerimônia democrática se repetirá: uma pessoa, uma consciência, uma urna. A tela pedirá seis escolhas. E o país inteiro à espera do som curto da confirmação. Primeiro, escolher deputada ou deputado federal; depois, deputada ou deputado estadual – distrital, no Distrito Federal. Em seguida virá o Senado, e aqui mora um detalhe que ainda surpreende muita gente: serão duas vagas. Duas. O eleitor precisará digitar dois números diferentes, um para cada candidatura, pois repetir o mesmo número não produz um segundo voto. Como essa informação nem sempre circula com a clareza necessária, convém repeti-la como quem avisa ao vizinho ou a um familiar para não esquecer a chave: neste ano, cada estado e o Distrito Federal elegerão duas senadoras ou dois senadores. Depois, a urna perguntará por quem governará o estado e, por fim, por quem presidirá a República Federativa do Brasil. Não são apenas nomes enfileirados numa máquina, nem esta é uma eleição qualquer. Dela sairão os responsáveis por elaborar leis, fiscalizar governos, representar os estados e conduzir os Poderes Executivos estadual e federal nos próximos anos. Deputadas e deputados ocuparão as Assembleias Legislativas e a Câmara dos Deputados; senadoras e senadores representarão as unidades da Federação no Congresso Nacional; governadoras e governadores cuidarão dos rumos estaduais; e a Presidência conduzirá o Executivo federal. Em poucos minutos, a mão do eleitor atravessará municípios, estados e o país. Seu gesto alcançará decisões que tocarão a escola, o trabalho, a saúde, a segurança, a economia, o meio ambiente e a própria qualidade da democracia. Para eleitoras e eleitores cadastrados de 16 e 17 anos, comparecer não é obrigação: é escolha, e uma escolha de imenso valor. O voto só é obrigatório, em regra, dos 18 aos 69 anos; também é facultativo para pessoas analfabetas e para quem já completou 70 anos. A faculdade, entretanto, não diminui a importância de nenhuma dessas vozes. A juventude que decide participar leva à urna perguntas novas, urgências próprias e o futuro que terá de habitar por mais tempo. As pessoas analfabetas afirmam, pelo voto, que a cidadania e a compreensão da vida não se medem por diplomas ou pela palavra escrita. E as pessoas idosas oferecem a experiência de quem viu o país mudar, guardou memórias e aprendeu a reconhecer tanto as promessas quanto suas consequências. Para todos eles, votar pode não ser dever; continua sendo direito, voz ativa e participação na construção do destino comum. Há muitos algarismos a guardar, e ninguém precisa transformar cidadania em prova de memória. A colinha de papel, recomendada pela Justiça Eleitoral, pode acompanhar cada escolha. Antes de sair, se possível bem antes, é indispensável confirmar o local e a seção de votação no e-Título ou nos canais oficiais da Justiça Eleitoral. Houve alterações em relação ao pleito passado; confiar apenas na lembrança do antigo endereço pode terminar em pressa, desencontro e voto perdido. Convém também separar documento oficial com foto. Quem estiver com o e-Título em situação adequada poderá usá-lo conforme as regras de identificação. Na cabine, sem celular, resta o essencial: calma para digitar, atenção para conferir nome, fotografia e partido, e liberdade para confirmar. O voto é sigiloso porque a consciência não aceita capataz. Nem chefe, nem parente, nem líder, nem vizinho pode tomar para si a escolha alheia. Assédio e coação eleitoral não são zelo nem conselho: são afrontas à liberdade e podem configurar ilícitos. Conforme as circunstâncias, essas práticas podem ensejar responsabilização nas esferas criminal, eleitoral, trabalhista e civil, além da reparação por danos morais individuais e coletivos. Especialmente intolerável é o empregador valer-se do contrato de trabalho, da dependência econômica ou da hierarquia para pressionar quem trabalha e sufocar seu direito de livre escolha política. Ameaçar, perseguir ou despedir o empregado que se recusa a aceitar o “arreio” ou o “freio” eleitoreiro, com o propósito de puni-lo por não seguir a preferência política patronal, é ressuscitar o coronelismo e o conhecido voto de cabresto. Ninguém pode ser submetido ao jugo, à “canga” de quem se imagina dono da melhor escolha. Isso não é autoridade: é barbárie, e não pode prevalecer. Democracia não combina com ameaça, retaliação, recompensa indevida ou medo. A eleição já está polarizada, como revelam tantas conversas de família, grupos de mensagens e debates de esquina. Ainda assim, adversário não é inimigo. Antes de sair, além de se certificar de que está levando o documento e a colinha, cada pessoa deveria deixar a intolerância em casa. Ninguém deve ser perseguido por posição político-partidária, convicção ideológica, crença religiosa ou qualquer outra diferença. A Constituição Federal assegura a liberdade de consciência e de crença, inclusive religiosa. A vida em comum exige que essa garantia se transforme em respeito ativo às escolhas alheias, sobretudo quando o outro escolhe aquilo que não escolheríamos. Que fiquem do lado de fora da seção eleitoral – e, de preferência, de toda a vida pública e privada – a hostilização nas ruas e nas redes, a violência verbal ou física e toda forma de preconceito por origem, raça, nacionalidade, gênero ou orientação sexual. Racismo, xenofobia, misoginia, intolerância religiosa e LGBTQIAPN+fobia são intoleráveis. Nenhuma certeza particular autoriza humilhar, excluir, perseguir ou silenciar. O debate pode ser firme; a convivência precisa ser humana. A urna acolhe diferenças sem exigir que concordem entre si, apenas que saibam coexistir. Quando a votação se encerrar e o som da tecla verde ecoar pela última vez, começará outra espera. Aperfeiçoada ao longo de três décadas, a urna eletrônica não pede fé cega: oferece procedimentos de verificação. Seus sistemas passam por testes públicos de segurança, inspeção de códigos-fonte, assinaturas digitais, lacração, testes de integridade e outras etapas de fiscalização e auditoria, antes, durante e depois da votação, abertas às entidades legitimadas. Essa transparência técnica sustenta a credibilidade de um sistema concebido para preservar o sigilo, registrar cada escolha com integridade e permitir a conferência dos resultados. Por isso, esta eleição importa tanto. Nela, o país não escolherá apenas ocupantes de cargos, mas prioridades, limites e caminhos para anos decisivos. Que o pleito seja limpo, tranquilo e transparente; que a fiscalização, a apuração e a divulgação fortaleçam a confiança pública; e que a vontade do povo, expressa livremente nas urnas, seja respeitada. No fim, a democracia – vale lembrar! – não pede e nem quer unanimidade. Pede regras iguais, escolhas livres, instituições confiáveis e a coragem civil de aceitar que o Brasil pertence também a quem pensa diferente. JOSÉ ROBERTO DANTAS OLIVA O autor é Doutorando em Educação pela FCT-UNESP de Presidente Prudente, Mestre em Direito das Relações Sociais pela PUC-SP, Advogado Trabalhista, Juiz Titular de Vara do Trabalho aposentado, Professor, Radialista, Jornalista e titular da cadeira nº 18 da Associação Venceslauense de Letras – AVL

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