O eu se constitui pelas coisas que o sujeito é. Seu corpo, sua aparência, sua memória, seu trabalho, sua busca, sua fala. Tudo é o eu, mas este indivíduo também é junto do outro, já que constrói outras pessoas, experiências e lembranças fora de si através das relações que mantém. Essa ligação entre o sujeito e o outro e a própria relação de si com seu corpo se rompem dia após dia e assim se dá a inevitável experiência do luto.
A perda dos pais, do amor, do emprego, do viço da pele, do cabelo, da juventude. O sujeito que se encontrava sustentado pelas ligações frágeis e passageiras, precisa continuar a ser, mesmo depois de perder o que se tinha. O luto dificilmente será um lugar de existência leve, mas ele pode apontar para uma vida “apesar de”, pois tudo está intercalado. É preciso saber que a morte é inevitável e que esses lutos vão se transformar em outras coisas, que vão criar outros elos e essa é a melhor elaboração possível da dor da perda.
A morte também pode ser enxergada como uma espécie de conversão do sujeito. O indivíduo vai comendo, digerindo, deglutindo experiências e se tornando outras coisas a partir da ligação compartilhada. No fim das contas, não há fim, pois, o que o sujeito era, pensou e falou foi absorvido pelo outro, assim como seu corpo que se tornou matéria-prima para a existência de uma nova vida.
As linhas acima foram escritas para contemplar um sentido mais abstrato de fim. Todavia, para finalizar este diálogo sobre luto, quero falar sobre a recusa do fim, que é a negação do término de uma relação na qual já não existe mais o compartilhamento. Aqui, a partilha já não é prazerosa e não tem mais sentido, é chato. A negação do fim se dá quando não há um elo de eros na relação, é quando o sujeito está morto dentro da dinâmica afetiva, não há troca, é algo mortificado, que já acabou, mas insiste em continuar sendo.
Escrito por Rafaela Piai - Psicóloga CRPSP n°133655
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